Um amigo parou numa daquelas pastelarias chinesas clássicas espalhadas pelo Rio de Janeiro. Sempre pensei, aliás, no porque dos chineses insistirem tanto nesse tipo de empreendimento por aqui. Na terra deles deve ser sucesso garantido!
Mas enfim, estava lá meu amigo, abocanhando um salgado qualquer. A "chinesinha-mãe", uma das donas do estabelecimento, varria o chão, lutando contra uma horda de pombos famintos, que disputavam com a vassoura os resquícios deixados pelos clientes durante o dia.
De repente ela se irrita, empunha a vassoura com valentia e se lança sobre os pássaros, dizendo:
"Xô flango!"
Não sei se meu amigo terminou o salgado (e nem se o mesmo era de flango).
Veja: Avatar 3D (James Cameron) posted by RFerraz
10:59 PM
Desde quando nascera os médicos desconfiaram de algo estranho. Não chorou.
Mas foi durante o período de crescimento que ficou evidente: o menino não tinha memória. O diagnóstico mais próximo a que se chegou foi o de um Alzheimer que se manifestou logo no nascimento, em sua fase mais aguda. Um caso único na história.
Passava as horas desvirginando o mundo, vendo a vida com olhos surpresos. E na manhã seguinte acordava zerado, sem lembrar absolutamente nada do dia anterior. E iniciava-se um novo processo de descobertas, tudo dramaticamente inédito.
Não falava. Nada. Podia ouvir, mas seu eterno processo de amnésia não permitia que aprendesse nenhuma língua ou forma de comunicação mais elaborada. Só o que permanecia eram seus instintos.
Apesar disso, podia falar com os olhos como ninguém. Um olhar bonito, ímpar que expressava um constante estado de euforia.
Pulava da cama pela manhã, um tanto confuso. Mas por nunca ter tido memória, não havia um contraponto, nenhum tipo de referência ou rastro de lembrança que lhe afligisse por mais do que alguns minutos. E logo já estava vagando aquele mundo novo que lhe abria a cada novo dia, repleto de cheiros, cores, texturas e sons nunca antes experimentados.
“Era o menino mais feliz do bairro, talvez da cidade, do país ou até do mundo inteiro”, diziam as outras crianças que o conheciam. Seus pais já nem se importavam de não serem reconhecidos pelo próprio filho a cada nova manhã. A alegria do garoto era tão contagiante que eles mesmos adotaram um estilo de vida que prezava pelo ineditismo. Cada dia tornava-se mais excitante apresentar coisas novas ao garoto.
Era uma família excêntrica, mas muito unida e feliz. Viviam realmente um dia de cada vez. O cotidiano era sempre imprevisível e mesmo assim viajavam juntos a muitos lugares. O pai e a mãe buscavam também aquele brilho no olhar que o garoto apresentava constantemente. Mas para eles era muito mais difícil, raro. Precisavam de uma ampla gama de variações, enquanto o menino não fazia nenhum esforço, o prazer da novidade estava até nos pequenos detalhes: um inseto, o vento, a areia, o quente e o frio, o vai e vem da cidade, a chuva.
Aliás, desde pequeno os pais perceberam o que o menino mais gostava de "descobrir": o gelo. Cada vez que lhe apresentavam uma pedra d’água – ideia que tiveram lendo Cem Anos de Solidão – o pequeno desmemoriado se encantava!
E assim, o garoto foi crescendo, com seu ciclo de memória de 24 horas. Degustando a beleza eterna da primeira vez. Lugares, pessoas, sensações... Um mundo novo que se descortinava dia a dia.
Não tinha passado. Não possuía o aprendizado das experiências anteriores. Mas, também não sofria pelas angústias das mesmas. Tornou-se um adulto radiante, sem entes queridos falecidos, traumas infantis, dores de amor. O mundo se abria para ele e ele se abria para o mundo a cada nova manhã.
Até a fatídica noite em que acordou gritando. Um surto de memória lhe tirou não apenas o sono, mas a vida.
Foi o atestado de óbito mais estranho que todos conheceram: “overdose de lembranças”.
Veja: Abraços Partidos (Pedro Almodóvar)
Ouça: Dona Cila (Maria Gadu)
Leia: O inferno atrás da pia (Antonio Prata)
Leia: A outra América (José Arbex Jr.) posted by RFerraz
12:39 AM
Chego pedalando à última rua do meu percurso. “A última vez daquele percurso”, foi o que pensei.
A pedalada que fiz quase diariamente por três anos. De casa à faculdade, ao cair da noite (ou já nela). Hoje, aquela rua se coloriu de um preto e branco imaginário. Só meu.
Esse é o melhor trecho do caminho: venho por uma principal e, já embalado, faço uma curva à esquerda. Normalmente nessas horas, já sem as duas mãos no guidão, com o MP3 tocando alguma sonzeira selecionada durante os 15 minutos anteriores. É o apse da “viagem”, uma rua longa, levemente inclinada, que desemboca na porta da universidade. São algumas centenas de metros de uma descida embalada e suave, que me remete a alguma coisa da infância, talvez a caça por ladeiras parecidas.
Nesse dia, o do último dia na faculdade de História, me veio à cabeça a primeira vez que fiz aquele caminho. Da primeira vez que eu resolvi “quebrar” à esquerda naquela rua – a curva que depois de um tempo eu já fazia sem as mãos, guiando a “magrela” apenas com o peso do corpo.
Uma baita metáfora. Na mesma época eu vinha trilhando meu caminho como jornalista. Resolvi dar uma quebrada à esquerda, entrar naquela “rua” da História com a qual já flertava - e confirmei a paixão. Entrei por aquela rua hoje sem as mãos, pela última vez, numa reta firme. Vento na cara, uma letra bonita cantando no ouvido, a monografia na mochila. E um sentimento de agradecimento à curiosidade, às curvas e esquinas da vida, ao poder se permitir.
Ser livre em suas escolhas, e torná-las parte de você.
Eu quero é me embranhar em mais ruas como essa.
***
Último dia, aliás - de qualquer coisa - sempre mexe.
Fico imaginando se soubéssemos antecipadamente de “últimos dias” que nos acontecem naturalmente, sem que percebamos que aquele era o “último gole”. O último instante com alguém muito querido (um pai, um avô, um irmão); o último papo com uma grande amizade que você não verá mais; a última viagem em família; o último passeio com seu cachorro; a última pelada com amigos; a última transa com alguém que vai passar; seu último prato de comida; o último sol.
Desse drama, ainda bem!, a gente é poupado.
***
Todos os verbos
Zélia Duncan
Veja: A onda (Dennis Gansel)
Veja: No Direction Home - Bob Dylan (Martin Scorsese)
Ouça: O Diabo é Deus de folga (Lobão) posted by RFerraz
1:03 AM
Eu vi um menino correndo
Eu vi o tempo
Brincando ao redor
Do caminho daquele menino...
Eu pus os meus pés no riacho
E acho que nunca os tirei
O sol ainda brilha na estrada
E eu nunca passei...
Eu vi a mulher preparando
Outra pessoa
O tempo parou prá eu olhar
Para aquela barriga
A vida é amiga da arte
É a parte que o sol me ensinou
O sol que atravessa essa estrada
Que nunca passou...
Por isso uma força
Me leva a cantar
Por isso essa força
Estranha no ar
Por isso é que eu canto
Não posso parar
Por isso essa voz tamanha...
Eu vi muitos cabelos brancos
Na fonte do artista
O tempo não pára e no entanto
Ele nunca envelhece...
Aquele que conhece o jogo
Do fogo das coisas que são
É o sol, é a estrada, é o tempo
É o pé e é o chão...
Eu vi muitos homens brigando
Ouvi seus gritos
Estive no fundo de cada
Vontade encoberta
E a coisa mais certa
De todas as coisas
Não vale um caminho sob o sol
E o sol sobre a estrada
É o sol sobre a estrada
É o sol...
Por isso uma força
Me leva a cantar
Por isso essa força
Estranha no ar
Por isso é que eu canto
Não posso parar
Por isso essa voz, essa voz
Tamanha...
Veja: Jean Charles (Henrique Goldman) posted by RFerraz
10:14 PM
Crianças com câncer. Primeiro dia de aula na Casa Ronald McDonald, e meu primeiro dia como professor voluntário.
Pergunto a eles:
"O que vocês querem aprender?" (Lá o currículo é solto, flexível, pois as crianças, de diversas faixas etárias, permanecem na Casa somente durante o período do tratamento).
As respostas não foram tão inusitadas quanto eu esperava: saber sobre os bichos, aprender a história dos lugares onde moravam (tinha uma brasileirinha de 13 anos residente em Dubai), conhecer os países do mundo...
O último menino - de olhos espertos e a cabeça repleta de pontos que iam de uma orelha à outra – foi o mais enfático: “Quero saber sobre os dinossauros e tudo sobre esse céu que cobre a gente. Onde termina o Universo?”
Eu fiquei ali, meio atordoado com uma pergunta tão direta e tão complexa de responder e, mais ainda, com um pensamento que me veio como um relâmpago. Uma criança que dava “boa noite” diário à morte (e um “bom dia” à vida na manhã seguinte) com sonhos tão grandes, distantes e complexos. Tão altos.
Em contraponto, meus medos, minha coragem, minhas angústias ficaram miúdos.
O menino com câncer no cérebro deveria servir de exemplo ao nosso pragmatismo diário.
****
Enquanto isso na favela...
Aula de Geografia. A professora resolve “contextualizar” a aula e aborda o tema das formações das favelas cariocas.
Dentre outras coisas, explica aos alunos que na verdade os morros são acidentes geográficos, que foram sendo aos poucos ocupados pelas populações carentes, em grande parte migrantes vindos de outras regiões do Brasil etc.
Ao final pede aos alunos, moradores do Morro dos Macacos, que desenhem a planta da favela em que residem.
Os primeiros trabalhos são entregues em menos de 3 minutos, entre muitas risadas, com um singelo desenho: uma folha de maconha.
Veja: Os Estados Unidos Contra John Lennon (David Leaf, John Scheinfeld)
Quem precisa de ordem pra moldar?
Quem precisa de ordem pra pintar?
Quem precisa de ordem pra esculpir?
Quem precisa de ordem pra narrar?
Quem precisa de ordem?
Agora uma fabulazinha
Me falaram sobre uma floresta distante
Onde uma história triste aconteceu
No tempo em que os pássaros falavam
Os urubus, bichos altivos, mas sem dotes para o canto
Resolveram, mesmo contra a natureza, que haviam de se tornar grandes cantores
Abriram escolas e importaram professores
Aprenderam dó ré mi fá sol lá si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si
Para escolher quais deles passariam a mandar nos demais
A partir daí, criaram concursos e inventaram títulos pomposos
Cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular
A fim de ser chamado por vossa excelência
Quem precisa de ordem?
Quem precisa de ordem pra escrever?
Quem precisa de ordem?
Quem precisa de ordem pra rimar?
Quem precisa de ordem?
Passaram-se décadas até que a patética harmonia dos urubus maestros
Foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas
Que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás
Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos e sabiás
Para um rigoroso inquérito
"Cada os documentos de seus concursos?" indagaram
E os pobres passarinhos se olharam assustados
Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar
Naturalmente cantavam
"Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem!"
Bradaram os urubus
E em uníssono expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos
Que ousavam cantar sem alvarás
Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás
Quem precisa de ordem pra dançar?
Quem precisa de ordem pra contar?
Quem precisa de ordem pra inventar?
Gonzagão, Moringueira
precisa o quê??
Dona Selma, Adoniran
precisa não!
Chico Science, Armstrong
precisa o quê??
Dona Ivone, Dorival
precisa não!
Veja: Do outro lado (Fatih Akin)
Ouça: Bem natural (Móveis Coloniais de Acajú)
Leia: O livro de cozinha do excursionista faminto (S. Beck) posted by RFerraz
12:17 PM
Um “tique”, um involuntário impulso do corpo: o espirro. Uma espécie de transe pelo qual passamos por alguns milésimos de segundo, uma forma transcedental que seu corpo inventou de expulsar ar.
Tem do tipo espaçoso, “virótico”. Sofrem os que estão à volta do que profere o atchim fatal: saem todos molhados ao fim do ato. É espalhafatoso, cruel. E às vezes um paradoxo ao qual o dono - tímido e discreto – é obrigado a se expor constantemente. Um sutil sujeito e seu espirro colateral.
Existe, porém, o seu contraponto: o contido. Esse dá nervoso a quem vê. O rosto da pessoa anuncia a explosão - que nas horas impróprias a gente tenta ignorar. Você toma distância, uma autodefesa imunológica. Mas assiste a um gestual rígido e um discreto barulho, um quase rangido entre-dentes. Quando eu era criança achava que espirro preso cobrava sua dívida mais tarde. Voltaria depois com uma intensidade ainda maior – tipo a dor de barriga.
Aliás, falando em caras e bocas, a "expressão pré-espirro" é única (merecia uma crônica à parte). Desfigura, desconcerta qualquer um, sem pedir licença muitas vezes. Um dos mais engraçados a que já assisti é o do meu cachorro: a pata dianteira direita se levanta, um olho fecha, e umas três cafungadas pra dentro depois vem uma “tosse” de ar, que o faz baixar a cabeça até o chão. Depois ele levanta o pescoço, com uma cara chapada de alívio, comum a todos nós (bichos e homens).
Tem gente que adora espirrar. Tem gente que odeia, e aqui se destacam os afligidos pela rinite alérgica. Para esses últimos, é um calvário, quase diário, anexado a uma série de sintomas, garganta e nariz coçando, olhos lacrimejados.
Eu fico no grupo dos que gostam - e olha que espirro um tanto. Os meus costumam vir pelas manhãs, uma forma que meu corpo reage aos primeiros raios de sol. Descobri na minha busca por cultura “inútil” (existe?), que isso se chama reflexo fótico. É um "engano" do seu organismo e, olha só!, um dos mistérios ainda não explicados pela Ciência. Ainda não se sabe ao certo qual é sua causa.
Em alguns países do Oriente Médio, e outros como Rússia e Hungria o espirro pode ser interpretado como uma confirmação de Deus sobre a veracidade do que foi dito por você anteriormente. No Japão muitas pessoas acreditam que o espirro é um aviso de que estão lhe difamando, enquanto na Índia dizem que você está sendo lembrado por alguém querido. Por lá, inclusive, não “saber” espirrar – sinal de vitalidade - é visto com espanto e tem até nome científico: asneenzia.
É impossível espirrar de olho aberto.
Existem várias estratégias para se evitar um espirro. A maioria não funciona.
A origem do “Saúde!”, que lhe desejam após um espirro, é um “Boa sorte” no seu combate à doença que já acusa sua chegada.
A "potência" de um espirro chega a 160 km/h. Prendê-lo pode causar até a ruptura dos tímpanos!
Vai um lencinho aí?
Chico, iniciando sua "expressão pré-espirro"
Veja: Aconteceu em Woodstock (Ang Lee)
Ouça: Os dentes brancos do mundo (Zélia Duncan) posted by RFerraz
6:30 PM
Já falei disso. Mas tenho que falar de novo porque não consigo deixar de achar incrível dia, ou melhor, noite como a do último apagão.
É quando fica mais incontestável a presença de uma “inconsciente” rotina, rituais que não são só meus. Mas compartilhados por todos nós – ou ao menos pela grande maioria de nós. Nossos inevitáveis e repetitivos atos diários.
Falei sobre isso com outras pessoas e percebi que todos, até agora, passaram por situações semelhantes, tiveram uma sensação parecida de “desrotinização” nessas poucas horas sem luz elétrica.
A coisa se agrava porque hoje em dia isso significa ficar sem computador, televisão, geladeira, elevador, ventilador... iluminação! Dentre outros elementos “vitais” ao nosso dia a dia.
E pensar que muita gente achou que era coisa de “magia” quando Thomas Edison (1879) criou a primeira lâmpada elétrica – que funcionou por dois dias seguidos! Magia arrebatadora essa.
No dia do apagão, aqui em casa, depois da janta, já estávamos devidamente confortáveis, em nossos cômodos particulares, casulos de ar condicionado e televisão. De repente a falta de luz embaralhou tudo. No fim, eu dormi embaixo da janela da sala sentindo a discreta brisa que correu depois da chuva. Tive um sono ótimo e acordei ao som de uma cantoria frenética de passarinhos que saudavam a bonita manhã que nascia.
No quarto, vi que meu irmão dormia ao contrário na cama, em busca também de ar fresco. Ele foi um dos que mais curtiram a escuridão e o silêncio, aliás. Do jeito que estava, apagou, virando-se apenas em direção à janela.
Antes disso, assim que a luz se foi, nos reunimos no apartamento ao lado, onde moram meus tios e primos. Jogamos um pouco de conversa fora, falamos de amenidades. E colocamos o celular em cima da mesa, à luz de velas, ouvindo as notícias que saíam do radinho do aparelho (um baita acessório, conforme me dei conta esse dia). A cada informação nova, um burburinho: não é só aqui na rua! Não é só aqui no bairro! Não é só no Rio! Não é só no Brasil!?
Uma família inteira reunida em volta do rádio que, em plena era digital, deve ter tido uma das maiores audiências dos últimos tempos. Dava para sentir na voz empolgada do narrador-âncora. Uma noite que me fez remontar umas cinco ou seis décadas atrás, quando as ondas radiofônicas despertavam essa excitação, essa confidência e cumplicidade entre a “caixinha” e o pé do ouvido de alguém.
Na casa de outra tia ouvi dizer que meu sobrinho jogava objetos inusitados no tio, que o caçou às cegas durante um bom tempo. A brincadeira durou quase uma hora, antes de dormirem - todos juntos - na sala da casa onde moram, em frente a uma imensa janela e um gramado refrescante.
Na casa de um amigo do trabalho teve sessão de piadas. Falei com gente que jogou baralho à luz de velas (que apagavam a cada jogada mais empolgante). Teve maluco que pegou a bicicleta e foi dar um rolé na penumbra! Teve momento de intimidade caliente - e um chute na bunda da mesmice! Nessas horas quem nunca esbarrou com um vizinho no corredor do prédio pedindo uma vela? E por que a lanterna nunca tem pilha quando você precisa? Isso se você achá-la.
Loucura também é nosso vício em apertar os interruptores, que permanece mesmo sem luz. Você entra no banheiro, tasca o dedo e “plim!”. Nada acontece. Como quando tentamos saber as horas no pulso em que já não há relógio.
Morar sozinho durante um apagão não deve ser legal.
E a desordem generalizada a cada esquina? Um buzinaço sem rumo, explanando nossa falta de bom senso, tão dependente de duas luzes que não pensam, apenas piscam em intervalos calculados: verde, vermelho. Siga; pare. Sem elas, a anarquia desvairada, nosso egoísmo em seu habitat natural: o trânsito.
Mas que fique claro, não estou fazendo apologia à escuridão e nem sou um ardoroso inimigo da eletricidade, pelo contrário. O que me desperta a curiosidade são as regras invisíveis da vida. Nossa infalível zona de conforto; nossa rotina discreta; nossa incapacidade de ordem natural; nossa tendência ao caos.
Não devia se chamar apagão. É uma escuridão que ilumina o que está ali, no escuro.
Leia: O cru e o cozido (Claude Lévi-Strauss) posted by RFerraz
1:15 AM
Pé de favela Escolhi trabalhar numa escola localizada na entrada do Morro dos Macacos (Vila Isabel). Queria conhecer de perto uma parte da realidade não só da educação, mas do próprio Brasil, renegada quase que ao noticiário policial.
Nove da manhã. Dia de sol bonito, tipicamente carioca. Os adolescentes de 12, 13 anos eram organizados em filas na entrada da escola para que embarcássemos, em seguida, num ônibus particular. O destino: uma visita guiada ao Museu da República.
De repente, um burburinho. O primeiro grupo de adolescentes que estava à frente da fila, passa batido em direção ao interior da escola, alertando: a polícia! Alguns deles exibiam um estranho sorriso de excitação, como que avisando: “a brincadeira vai começar”.
E começou mesmo. A primeira rajada que ouvi (e vi), logo depois do aviso dos meninos, recebi com certa incredulidade. Em seguida, já era uma dezena de policiais, que passava em frente ao portão da escola. Vultos que apontavam o bico dos seus fuzis logo acima das cabeças das crianças.
A delegacia fica ao lado da escola. Mesmo assim, nenhum aviso foi dado. Muito menos algum pedido de desculpas veio depois – seria o mesmo se tivesse acontecido em frente a uma instituição particular?
Enquanto a bala comia do lado de fora, fiquei com os alunos, que se protegiam sentados nas escadas que ligavam o andar de cima ao pátio principal. Paredes. As maiores aliadas deles nessa hora. Foi quando pude conferir de perto a reação dos pequenos diante daquela situação nova para mim (amedrontado e encolhido), e tão comum a eles (completamente à vontade).
Dois meninos, empunhando seus cadernos como fuzis (cena mais do que recorrente no dia a dia da escola), corriam um atrás do outro. Simulavam o bang bang que podiam ouvir lá fora, entre um enorme grupo de crianças espremidas nas escadas, num ambiente que misturava perplexidade, euforia e brincadeira. Muitos, repito, se divertiam.
A brincadeira das crianças contrastava com o desespero dos professores. Um deles, que vivia a me alertar sobre os tiroteios recorrentes, se dirigiu a mim gritando: “Agora sim você está vendo a nossa realidade!”
Bizarramente, passados menos de 10 minutos do susto inicial- e quando ainda podíamos ouvir o barulho do confronto entre policiais e traficantes, que agora se enfrentavam mais acima da favela - muitos alunos queriam ir embora. O desafio era, então, mantê-los lá dentro.
Fiquei responsável por levar um grupo do 6º ano para uma das salas seguras e ocupá-los com um filme até a “poeira baixar”. A professora me passou um DVD: A casa monstro. A história resumidíssima: dois meninos moradores de um típico subúrbio norte-americano - da mesma faixa etária dos alunos, diga-se de passagem - descobrem uma casa mal assombrada no outro lado da rua e tentam avisar aos demais moradores. A animação de alta qualidade e criativa, no entanto, não despertou NENHUM interesse dos alunos. E logo percebi por que: casas mal assombradas não fazem parte da lista de medos comuns por ali. O caveirão sim. O filme, enfim, não correspondia em nada à realidade deles, um imaginário infanto-juvenil permeado por elementos incrivelmente distantes dos de uma criança ordinária, comum; retratados toscamente naquela manhã de tiroteio em frente à escola. Segurá-los naquela sala tornou-se, assim, quase impossível.
Aos poucos, depois de 3 horas do ocorrido, as crianças começaram a ser liberadas para subirem a favela em grupo ou com algum responsável. E quando já não havia quase mais ninguém na escola fui até o portão e me deparei com um sujeito branco, bem vestido. Logo percebi quem era:
- O que aconteceu? As crianças estavam saindo para um passeio? Os policiais atiraram mesmo com elas à frente?
Um repórter. Eu, ao contrário do silêncio que reinava, resolvi contar tudo – minha declaração, inclusive, saiu n’O Globo do dia seguinte. Quando entro na escola sou repreendido pelos demais funcionários, mas logo consigo convencê-los sobre a importância de tornar público esse tipo de truculência policial - que colocou em risco a vida de várias crianças - com uma simples pergunta: e se fossem os filhos de vocês?
Mas logo entendi que voz silenciada é lei naquele lugar. Um silêncio parecido com o que pude "ouvir" durante o caminhar na volta para casa. O restante da cidade continuava acontecendo, parecia que nada acontecera a alguns metros atrás. Senti-me covarde – talvez um indício de ex-covarde.
Numa rua logo ali crianças conviviam com a desigualdade, o desleixo, a violência, a ignorância, a truculência. Com sangue esparramado no chão, buracos de bala em suas portas. Algumas ruas à frente, tudo mudava. Como pode essa convivência entre ambas as coisas acontecer de forma tão natural, banal?
Coisas do Rio de Janeiro; coisas do bicho homem.
Veja: Ghetto (Audrius Juzenas)
Ouça: Soldado do Morro (MV Bill) posted by RFerraz
7:08 PM
1 – Contei uma baixaria que a namorada de um amigo havia feito com ele. Perdi o amigo; ganhei dois inimigos.
2 – Ajudei a primeira menina que beijei depois do término de um namoro de 6 anos a escrever uma carta de amor - que não deu certo.
3 – Mandei uma mensagem de celular com menos de 10 caracteres para um grande amigo que iria ter um final de semana decisivo para seu relacionamento. Soube depois que o casamento estava a salvo. Mas o tamanho da força daquela pequena mensagem é que ainda me surpreende. A cada agradecimento dele – orgulhoso da nossa cumplicidade espiritual naquele instante – a minha prova final sobre a verdade da arte dos pequenos gestos.
Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo. Aprendendo a jogar...
Mas ouvindo dia desses no MP3, lembrei de deixar aqui uma das melhores canções do novo állbum do Felipe Schuerry, "Data Crônica".
A melhor definição de uma obra quase sempre é a do próprio artista: "Resultado das angústias e prazeres que a avalanche de informação traz. Já fez a sua peregrinação virtual hoje? Curtiu os excessos? Ressaca agora?"
Abaixo a letra da música mais simbólica do álbum (na minha opinião), exatamente por tocar na ferida dos relacionamentos que se restringem à "virtualidade": o tudo e o nada, a super(ficial) informação.
CEM / SEM (Felipe Schuerry)
cem (sem) melhores lugares pra ir
cem (sem) mulheres bonitas pra dormir
cem (sem) igrejas pra rezar melhor
cem (sem) mirantes pra ver o sol se pôr
cem (sem) praias pra se bronzear
cem (sem) canções pra te conquistar
cem (sem) dicas pra nunca sofrer
sem espaço
sem tempo
pra viver
sempre que a gente tenta
marcar de se encontrar
você fica de ir lá em casa
eu fico de te ligar
cem (sem) contos de mitos e lendas
cem (sem) discos de grupos com C
cem (sem) jogos de computador
cem (sem) vinhos de uva merlot
cem (sem) datas pra comemorar
cem (sem) frases pra te impressionar
cem (sem) nomes pra pôr no bebê
sem espaço
sem tempo pra viver
sempre que a gente tenta
marcar de se encontrar
você fica de ir lá em casa
eu fico de te ligar posted by RFerraz
1:01 AM
Estar bem acompanhado, mesmo que num mundo metafísico.
Seis minutos para se pensar.
Ouça: Sorri (Djavan, letra de Charles Chaplin)
Veja: Geraldinos e arquibaldos (Gonzaguinha)
Leia: Os bestializados (José Murilo de Carvalho) posted by RFerraz
12:47 PM
'Um homem atormentado caminha pela cidade. Aos poucos, ele vai construindo seu destino, numa jornada apaziguadora, mas ao mesmo tempo desesperadora.'
Uma história comum transformada na mais bela poesia musicada que eu já vi.
O nome, Construção, pode ser interpretado de diversas maneiras: a construção onde trabalha o protagonista, a construção literária da própria música - misturando as últimas partes das frases - , a construção do nosso sistema, a construção da história daquele homem naquele dia...
Enfim, sutil, bonito e simples. E, por isso mesmo, genial.
Construção - Chico Buarque
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague posted by RFerraz
1:20 PM
O cara mais underground que eu conheço é o diabo. O mais estereotipado é o entregador de flores.
Na rua ele passa, de um lado a outro. Leva arranjos de rosas com lírios, cestas repletas de orquídeas, buquês de flores do campo embrulhadas em papel de seda. Carrega mais que isso: uma reconciliação, uma saudade, um agrado cotidiano. Cuidado. Conquista. Reconquista. Anonimato. Desprezo. Paixão. Insônia. Fetiche.
E vai ele, no meio da multidão, as flores nos braços, a delicadeza da flora em meio à fauna da cidade. Segue sem saber o que ele irá encontrar pela frente. Uma mulher surpresa. Uma moça ressentida. Um coração partido. Um desprezo glacial. A alegria apaixonada.
Na verdade ele nem liga mais. As flores que transporta são meros objetos carregados de sentidos que não lhe pertencem. É o que parece.
Mas tenho a certeza que lá no fundo daquele olhar cínico e despretensioso, vai uma alma carregada da incerteza do que leva nas mãos.
Repara só no próximo que passar por você.
Ouça: Tom Zen (Kevin Johansen)
Veja: Tempos Modernos (Charles Chaplin)
Leia: Carnavais, malandros e heróis (Roberto DaMatta) posted by RFerraz
1:08 AM
O intelectual argentino Claudio Katz é reconhecido mundialmente por suas análises penetrantes e polêmicas sobre a atual fase destrutiva e regressiva do sistema capitalista. Autor de vários livros, ele integra o coletivo "Economistas de Esquerda" (EDI) e hoje dá assessoria ao presidente Hugo Chávez.
Num dos trechos desta instigante entrevista, Claudio Katz analisa o papel da mídia hegemônica. Indica que as esquerdas, dos mais variados matizes, devem dar mais atenção aos meios privados de comunicação, que hoje exercem uma 'grande inquisição midiática' no planeta. Ao tratar da retomada da ofensiva da direita latino-americana, através de golpes, bases militares e conquistas eleitorais, ele destaca esta "novidade".
A influência despótica da mídia
A direita cultural, neoconservadora, latino-americana, governou a região durante décadas, e alimenta os governos militares, mantendo um pensamento elitista, liberal e eurocêntrico. Hoje, ela tem grande capacidade de manipulação midiática. Essa é a novidade. Porque governaram historicamente através da igreja, dos seus recursos, das suas escolas, e agora como têm os meios de comunicação sob o seu domínio, elas exercem uma influência despótica através dos mesmos.
Os meios de comunicação são agora o que foi a Igreja Católica?
Eles são a grande inquisição e exercem uma influência nefasta. Por isso me parece tão salutar e transformadora a decisão de Chávez de não renovar a licença da RCTV. Creio que essa medida é muito mais transcendente que qualquer nacionalização de uma empresa siderúrgica.
Com essa resposta, vão dizer que Claudio Katz é um tipo totalitário. Como você responde?
Dizem isso porque para eles manipular monopolisticamente um grupo de meios de comunicação é um exemplo de democracia. Há uma hipocrisia absoluta. Os donos dos meios de comunicação são um punhado de pessoas, um grupo minúsculo que não é eleito. É algo paradoxal, pois se todos os congressistas têm de ser votados e qualquer presidente e governador também, por sua vez os meios de comunicação, que têm um poder muito mais sólido e estável que todas as autoridades eleitas de qualquer país, e esses ninguém elege, são puro poder do divino. Dizem que competem entre si através da mudança dos canais, mas a oferta é minúscula. Ou seja, o telespectador pode optar entre a CNN e a Globovisión, mas isso nada muda, vêem o mesmo.
Como é possível democratizar os meios de comunicação na América Latina?
Do mesmo modo como se democratiza qualquer instituição. Os meios de comunicação não podem ser privilegiados em relação a outras instituições. Temos que democratizar a vida política, as escolas, as instituições, as forças armadas, a sociedade, tudo. Tem de haver uma preocupação cotidiana de acabar com as discriminações de gênero, de raça, de etnia. Na América Latina estamos mudando as constituições de muitos países para incorporar novos direitos, para incorporar os direitos esquecidos dos indígenas, da juventude, das crianças. Ou seja, o desenvolvimento da sociedade é a ampliação dos direitos. O único direito de que não se pode falar é o direito à comunicação. Esse quer ser intocável.
O sociólogo brasileiro Emir Sader, atual secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), dizia que os meios de comunicação, para serem democratizados, necessariamente teriam que passar ao controle do Estado. Concorda?
Creio que têm de ser propriedade pública. Mas, atenção, eles não podem ser manuseados por um governo, porque isso levaria a formas totalitárias. Há muitas experiências nos últimos 50 ou 60 anos de instituições públicas que não dependem do governo. O caso da BBC de Londres é muito comentado. Não o estudei, mas conheço muitas experiências onde o importante é que estejam sujeitos a um regime legal que impeça a sua manipulação pelo governo, por exemplo. Não podemos passar de meios manipulados por grupos capitalistas a meios manipulados por governos. Tem que haver liberdade informativa, mas também propriedade pública. Creio que há que discutir os mecanismos de propriedade democrática dos meios de comunicação.
'Basta pensar em sentir
Para sentir sem pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei-de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.'
Fernando Pessoa, 1932
Os homens aprenderam com Deus a criar.
E foi com os homens que Deus aprendeu a amar
Cordel do Fogo Encantado (Os anjos caídos) posted by RFerraz
9:49 PM